domingo, 31 de agosto de 2008

O Laínte

O Laínte da Casconha

O meu avô era um dos cerca de 300 comerciantes de fazendas da freguesia de Campelo que nos anos 30 calcorreavam o país vendendo tecidos produzidos nas fábricas de Castanheira de Pera.

As zonas do país em que efectuavam o seu trabalho seriam essencialmente o distrito de Setúbal e o Algarve, aqui incidindo em Monchique e Portimão.

Partiam das suas casas na freguesia madrugada fora a pé até à Castanheira de Pera, onde se abasteciam das fazendas. A partir daí a viagem era feita na camioneta de carreira movida a gasogénio ou em "charretes" puxadas por 4 mulas, até atingirem a estação ferroviária de Paialvo (perto de Caxarias, concelho de Fátima).

Regressariam às suas casas de seis em seis meses, voltando a partir pouco tempo depois.

Memórias, entre outras pessoas, do Sr. José Casimiro de Campelo


O meu avô certamente falou o dialecto "Laínte da Casconha", único no país e muito bem caracterizado no texto publicado no site da Câmara Municipal da Castanheira de Pera, que reproduzimos de seguida.

Para aprofundar este interessante assunto vale a pena ver a excelente monografia da Kalidás Barreto - "Monografia do Concelho de Castanheira de Pera", edição comemorativa do 90.º aniversário da fundação do concelho, 3.ª edição, 2004 - páginas 365 a 376.


:. L A Í N T E D A C A S C O N H A .:

“Áques larfamos Laínte” – Aqui falamos Laínte

No século XIX, o espírito inventivo dos Castanheirenses levou à criação do Laínte da Casconha. Laínte é uma modificação da palavra latim. Falar latim significa, em linguagem coloquial, “expressar-se de um modo que ninguém entende” – tem este significado devido ao latim em que eram, antigamente, celebradas as missas e que ninguém entendia. Assim, Laínte significa linguagem que só os iniciados entendem e Casconha uma palavra inventada que significa Castanheira de Pera.

O Laínte tem por base a língua portuguesa, utilizando as mesmas regras gramaticais (tempos verbais, substantivos, …). Os vocábulos são, na sua maioria, formados a partir da transformação das palavras em português.

Trata-se de uma linguagem exclusivamente oral que era utilizada pelos vendedores ambulantes de tecidos de Castanheira de Pera.

Esta linguagem terá surgido aquando da expansão das indústrias de lanifícios, cujos tecidos aí fabricados era necessário vender fora da região.

Homens de trouxas às costas, de burro ou de mula, percorriam o país vendendo os tecidos oriundos das indústrias de Castanheira de Pera.

Esta situação de “andarilhos solitários” incutia-lhes um espírito de entreajuda e solidariedade. Mas também a necessidade de estarem em permanente alerta, devido à cobiça suscitada pelos tecidos que tinham para vender, assim como pelo dinheiro que transportavam, fruto da venda dos mesmos, obrigava-os a adoptar atitudes defensivas.

É neste contexto de entreajuda e necessidade de defesa que surge o Laínte.

Esta linguagem permitia, assim, aos vendedores comunicar entre si sem que os clientes entendessem e, em caso de assalto, combinar uma estratégia para se defenderem. Em meados do séc. XX, devido às alterações da forma de comercializar os tecidos (confecções, …), os vendedores deixam de andar de terra em terra e fixam-se.

Com esta fixação do comércio, deixa de haver necessidade de uma autodefesa e de um espírito de entreajuda e, como tal, também de uma linguagem própria – o Laínte – começa, assim, a deixar de ser falado.

Os últimos vendedores ambulantes, que sabiam falar Laínte, foram: o Sr. Valdemar Rosinha, o Sr. José da Silva Mendes e o Sr. Virgílio.

Actualmente, o Sr. Domingos Alves é a única pessoa que ainda sabe falar laínte.

Este castanheirense dedicou-se ao estudo desta linguagem, realizando um trabalho de recolha junto de antigos vendedores ambulantes e seus familiares. Esta recolha, efectuada ao longo de muitos anos, irá culminar com a publicação de um livro, que ainda se encontra em fase de elaboração. Para além do trabalho de recolha, o Sr. Domingos também procede à divulgação do laínte.


Pequeno Diálogo em Laínte:

- Choina codêpia, hoidêje a rêfa verse cópia.

- Insara amidêgo, o cames verdunhou timum de faiarra.
- Taêmes o cames, jordamos atilém ao cadéfe bercher um moiteira copio?
- Insara, o cames taêmes jorda carmar cidorras pra cachinar.


Tradução em Português:

- Boa noite, hoje a feira foi boa.

- É verdade amigo, eu vendi muita fazenda.
- Também eu, vamos além ao café beber um copo de vinho?
- Sim, eu também vou comprar cigarros para fumar.

Elaborado por: Carla Caetano e Sónia Cardoso

Texto retirado do site da Câmara Municipal de Castanheira de Pera - www.cm-castanheiradepera.pt/lainte.asp

3 comentários:

Anónimo disse...

Sou uma das autoras do artigo "Laínte da Casconha", publicado no site da Câmara Municipal de Castanheira de Pera.

Este artigo foi elaborado aquando de um estágio na Câmara, em 2006.
Foi feito também um desdobrável e uma compilação de recortes de jornais e vídeos sobre o laínte.

Adorei fazer estes trabalhos - o laínte é uma linguagem muito interessante. Tenho muita pena que o laínte, património cultural, esteja a ser esquecido!!

Carla Caetano

José Farinha disse...

Só hoje encontrei este blog,e fiquei deveras surpreendido pela positiva,não fora um visitante meu da Câmara Municipal de Sintra ,não tinha dado por ela,parabéns pela iniciativa e vou devorar os textos já a seguir...será que anda aqui a mãozinha do Helder Martins?

Helder Martins disse...

não caro Farinha não é mãozinha do Helder Martins, foi outro descendente do maravilhoso lugar de Peralcovo, que se for filho de quem eu penso "JOSÉ REIS" faz-me lembrar tempos idos com muita saudade um abraço, se me permite em especial para si e estenda-o a essa maravilhosa gente da freguesia, se calhar vou ai pelas vindimas, (gaita não pode ser já hoje)