quinta-feira, 26 de maio de 2016

Jardim Bissaya Barreto e Casa da Criança - Castanheira de Pera

O jardim de Castanheira de Pera foi fundado em 1939 pelo professor Bissaya Barreto*, personalidade local, e concebido por artistas de Coimbra.


* Fernando Baeta Bissaya Barreto Rosa GCC • GCB (Castanheira de PeraCastanheira de Pera29 de Outubro de 1886 — Lisboa16 de Setembro de 1974), mais conhecido por Bissaya Barreto, foi um professor deMedicina da Universidade de Coimbra e político. Entre outras funções, foi deputado à Assembleia Nacional Constituinte (1911), dirigente do Partido Republicano Evolucionista e depois da União Liberal Republicana. Após o golpe de Estado de 28 de Maio de 1926 aderiu à União Nacional, de que foi um destacado dirigente.
Apresentamos algumas fotografias deste famoso jardim (agosto de 2015):




O Jardim público de Figueiró dos Vinhos: Um exemplo de paisagismo urbano entre montanhas.

Com a devida vénia, extraímos do Jornal "O Ribeira de Pera" um excelente artigo sobre o jardim de Figueiró dos Vinhos, da autoria de Margarida Herdade Lucas*: O Jardim público de Figueiró dos Vinhos: Um exemplo de paisagismo urbano entre montanhas.: * Mestre em História da Arte, Património e Turismo Cultural.


Alguém diz:
“Aqui antigamente houve roseiras”—
Então as horas
Afastam-se estrangeiras,
Como se o tempo fosse feito de demoras…
Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética, Caminho, Lisboa 2011.

1 – Jardim Municipal de Figueiró dos Vinhos. Foto da colecção da autora
Inaugurado em 1930 pela Primeira Comissão de Iniciativa, que o construiu, presidida pelo Dr. Manuel Simões Barreiros, o Jardim Parque de Figueiró dos Vinhos tem uma história anterior e um projecto que remonta ao final do século XIX. O terreno para a construção do jardim tinha sido doado por Joaquim Lopes de Paiva, que o possuía junto à sua residência na vila. Uma fotografia do início do século XX mostra essa zona ainda com os plátanos recém-plantados e que hoje formam a alameda principal do jardim.
Joaquim Lopes de Paiva (1853-1941), conforme descreve o jornal, A Regeneração de 15 de Março de 1941, que noticia a sua morte, era filho de Jerónimo Lopes de Paiva e de D.ª Maria Rosa Henriques dos Santos Paiva e “iniciara os seus estudos em Coimbra, mas não se conformando com o curso que os seus pais lhe queriam dar, (desejavam que fosse padre), resolveu ir para o Brasil, embarcando no ano de 1870.
Ali se conservou durante dezasseis anos, sendo obrigado a regressar à metrópole, por motivos de doença.
Esteve em Figueiró durante algum tempo e restabelecido da sua doença, voltou para o Brasil, com seu irmão Augusto, a fim de liquidar os seus negócios.
2 – Jardim Municipal de Figueiró dos Vinhos no início da sua construção. Foto da colecção da autora
Regressou definitivamente a Portugal, passado pouco tempo estabeleceu-se em Lisboa, com seu irmão António, com um estabelecimento de exportação de vinhos, sob a firma Paiva & Irmão, para o Brasil.
Por falecimento de José Quaresma Vale do Rio Júnior, fundador da empresa Vale do Rio, o falecido e seu irmão António tomaram a direcção dessa importante casa.
Na construção das estradas desta região, também a firma Paiva & Irmãos tomaram parte, e de outras empresas, granjeando, pelo seu trabalho e boa orientação, avultada fortuna.”
Sempre em prol do desenvolvimento da sua terra, foi um benemérito importante de Figueiró dos Vinhos. Para além da doação do terreno para o Jardim Municipal e da participação no seu projecto, noticia o mesmo jornal que “No fim do século passado (1898) Joaquim e António Paiva construíram a Capela de Santo António no Cabeço do Peão, e a respectiva estrada, a estrada para a sua Quinta do Ribeiro Travesso, concorreram para a reconstrução da Igreja com 500$00, deram o terreno para a construção da Escola Primária, hoje (1941) do sexo feminino e mais 500$00 e iniciaram a construção de um Jardim Público.”
A Capela de São Joaquim da Quinta do Ribeiro Travesso ostenta a data de 1898, na entrada principal, sabendo-se que esta capela e a de Santo António do Cabeço do Peão foram construídas ao mesmo tempo, pelos dois irmãos, Joaquim e António, sob a direcção de um arquitecto do Porto, cujo nome não se registou, havendo ainda a particularidade de serem dedicadas a santos com os mesmos nomes dos seus proprietários.
3 – Jardim Municipal de Figueiró dos Vinhos nos anos 50 do séc. XX. Foto da colecção da autora
4 – Jardim Municipal de Figueiró dos Vinhos. Foto de Miguel Portela
No mesmo jornal anunciava-se que as festas seriam adiadas para o dia 27, devido ao mau tempo. Coincidia ainda que se iria inaugurar a Igreja Matriz, depois das obras de restauro que nela decorreram, no dia de São João Baptista. De facto, os irmãos Paiva tinham feito parte do grupo que impulsionou e subsidiou estas obras, juntamente com o pintor José Malhoa, os escultores Simões d’Almeida Tio e Sobrinho, Henrique Pinto, José Quaresma de Oliveira, António Lopes Serra, Dr. Manoel de Vasconcelos e P.e Diogo de Vasconcelos. (O Figueiroense 20 Junho 1903.)” (Cf. PORTELA e LUCAS, 2011).
Dever-se-á, por tudo isto, salientar que o surto urbanístico e as obras que a vila de Figueiró dos Vinhos conheceram, nos seus espaços públicos, religiosos e administrativos remontam ao final do século XIX e a um grupo de personalidades também ligadas à fundação do Clube Figueiroense e de relações próximas com o pintor José Malhoa, entre outros.
“Quanto ao Jardim público de que fala o artigo do jornal que noticia o seu falecimento e já citado, constitui hoje o Jardim Municipal da vila de Figueiró dos Vinhos, inaugurado como tal em 1930 sob o impulso do então presidente da câmara Dr. Manuel Simões Barreiros e da Comissão Municipal de Turismo. Este jardim possui ainda uma alameda de plátanos, que já se encontravam plantados quando Joaquim
Lopes Paiva doou o terreno para a sua edificação. No topo norte situava-se a sua residência da vila. Esta é uma construção cuidada, seguindo a estética do final de novecentos, com desenhos Arte Nova nos gradeamentos e nos azulejos que os registos fotográficos demonstram, no revestimento da fachada e hoje desaparecidos.
Da mesma época, a casa do Dr. Manoel de Vasconcelos, onde António de Vasconcelos deu início à fábrica de Pão-de-Ló, ainda possui os azulejos originais nas paredes exteriores, sendo esta casa e a de Lopes de Paiva, as únicas que possuíam este revestimento.”
(Cf. PORTELA e LUCAS, A Quinta dos Paivas…, 2011, p.17.).
Analisando o conjunto do Jardim Parque, verifica-se a preocupação pela execução de um estilo ainda decorrente do Romantismo, apesar de tardio, mas muito característico nos espaços públicos, construídos nessa época nas cidades europeias.
A balaustrada, de secção quadrangular e de aresta viva, continua nas escadarias centrais contracurvadas e geminadas, estabelecendo a ligação entre os dois pisos principais do jardim.
A mesma balaustrada foi concebida para suportar os candeeiros de iluminação do piso superior, em linha ritmada e seguindo também o desenvolvimento das escadarias e, porque paralela à alameda de plátanos, constitui ainda um promontório de onde se alcança o panorama oriental da vila, em amplo campo de visão. Entre esta e a alameda, um passeio público com uma linha de bancos de desenho de tipo naturalista, com suportes de ferro forjado representando ramos de árvores e costas e assentos de madeira em prancha de cantos arredondados e pintados de “vermelhão chinês”, contrastantes com o verde das árvores.
As zonas ajardinadas do piso superior e inferior surgem delineadas em formas geométricas, que por sua vez se dispõem em torno de um eixo central que marca dois lados simétricos. Na parte lateral esquerda do piso inferior, plantou-se um bosque de espécies raras e de cores de ramagens variadas, onde se destacam árvores de copas avermelhadas entre outras de vários tons de verde. Atrás do bosque localizou-se a estufa e demais dependências de apoio à jardinagem e cultivo das plantas.
5 – Jardim Municipal de Figueiró dos Vinhos. Foto da colecção da autora
6 – Jardim Municipal de Figueiró dos Vinhos no início da sua construção. Foto: Postais ilustrados de Figueiró dos Vinhos, Anos 60 do séc. XX.
7 – Jardim Municipal de Figueiró dos Vinhos. Foto da colecção da autora
Já nos anos 50, numa época em que o Hóquei em patins se tornava um desporto de destaque em Portugal, foi construído um rink (1) para a prática do mesmo, bem como um Parque Infantil, depois nos anos 90 do século XX reposicionado para o piso central e transformado em área de restauração e bar.
8 – Jardim Municipal de Figueiró dos Vinhos – O Jardineiro José Francisco Simões Júnior (1910-1997), mestre de Topiaria. Foto da colecção da autora
Antes ainda, o final dos anos 20 e a década de 30 do século XX foram marcados pelo grupo que dirigiu o município e que fundou a 1.ª Comissão de Iniciativa: Dr. José Martinho Simões, Dr. Manuel Simões Barreiros, Prof. João António Semedo, Tenente Carlos Rodrigues Manata e José Manuel Godinho.
Obtiveram do governo a elevação a Estância de Turismo da vila de Figueiró dos Vinhos, pelo Decreto nº 15:317, de 11 de Abril de 1928. O turismo foi então considerado como uma das fortes apostas do concelho.
“Partindo das suas condições naturais de excepção, que A Regeneração divulgou largamente, produziram-se investimentos consideráveis no urbanismo da vila de Figueiró dos Vinhos e nas vias de comunicação, convertendo-se, durante algumas décadas, num dos destinos turísticos privilegiados do Centro do país. A obra de construção do Jardim Municipal, projectada já desde o final do século anterior, cujos terrenos haviam sido doados por Joaquim Lopes de Paiva, foi o expoente máximo das realizações deste grupo, sendo o único na região durante várias décadas.” (Cf. PORTELA e LUCAS, A Idade do Ouro…, 2011, p. 60.).
Os espaços públicos ajardinados, de inspiração romântica foram comuns no séc. XIX, sendo ainda hoje uma estética patente e conservada em toda a Europa e nas capitais europeias, em particular. Mas os europeus transportaram-nos para todo o mundo, criando-se um novo conceito de paisagismo urbano, que era então reclamado nas cidades do mundo ocidental, como aconteceu, por exemplo, em Nova Iorque com a criação do Central Park.
9 – Jardim Municipal de Figueiró dos Vinhos – O antigo coreto. Foto da colecção da autora
10 – Jardim Municipal de Figueiró dos Vinhos – Pormenor. Foto da colecção da autora
Neste caso, o público reclamou à câmara da cidade um espaço de lazer, que lhes conferisse os benefícios da vida do campo, solicitação que foi atendida em 1851, com a cedência de um terreno para a construção do primeiro parque urbano americano. (VIEIRA, 2007: p. 162). A referência a este caso tem
ainda outro acontecimento importante para a história da arte e da arquitectura: a criação pelo arquitecto Olmsted, um dos projectistas do Central Park juntamente com Calvert Vaux, da Sociedade Americana dos Arquitectos paisagistas (ASLA – American Society of Landscape Architecture). Este facto demonstra, não só a importância da criação do novo conceito de paisagismo urbano, mas também a ideia de especialização do arquitecto nessa área. (VIEIRA, 2007: p. 164).
No caso de Figueiró dos Vinhos, a implantação e a distribuição dos espaços, bem como a estética seguida pelo mobiliário decorre do Barroco palaciano que o Romantismo europeu depois transportou para os espaços públicos, quando o urbanismo desenvolveu os espaços comuns de sociabilidade, dentro do espírito do Liberalismo vigente.
De notar que o Jardim-Parque de Figueiró dos Vinhos, apesar de inaugurado oficialmente só em 1930, decorre esteticamente de um projecto anterior da geração que o Pintor José Malhoa vivenciou e que este evidentemente inspirou. De facto, foi após o seu estabelecimento na vila de Figueiró dos Vinhos e da construção da sua residência na mesma vila, que se constata um considerável desenvolvimento estético nas construções públicas e privadas e na evidente transformação do aspecto da vila, que até aí conservava maioritariamente os traços medievais e quinhentistas.
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11 – Jardim Municipal de Figueiró dos Vinhos. Foto da colecção da autora
12 – Jardim Municipal de Figueiró dos Vinhos. Foto: Postais ilustrados de Figueiró dos Vinhos (PORTELA, 2008)
13– Jardim Municipal de Figueiró dos Vinhos – Pormenor da balaustrada. Foto de Miguel Portela
De facto, construído o Jardim (também designado de Parque, ou mesmo de Jardim-Parque), a vila transportou para este novo espaço público as suas festas de Verão, que fizeram tradição nas datas coincidentes com a Feira anual da vila, ou Feira de São Pantaleão, durante todo o século XX e até aos nossos dias. O jardim não tinha só um significado turístico ou de lazer dos cidadãos, tinha adquirido o
significado de espaço festivo, com carácter e personalidade solene, concebido no imaginário da vila, como se se tratasse do seu espaço mais nobre, ou seja do seu “palácio”. E toda a sua estética o demonstra.
De todas estas condicionantes históricas e estéticas decorre o conjunto do Jardim figueiroense, incluindo o seu mobiliário, que manteve, até há pouco tempo, os equipamentos, materiais e cores originais:
– Balaustradas barrocas de secção quadrangular, em aresta viva, moldados em betão sem acabamento nem alisamento, com a finalidade de se aproximarem da aparência do granito;
– Escadarias semicirculares, de acabamento polido e com degraus de perfil clássico de frente arredondada e friso justaposto em aresta;
– Candeeiros de Iluminação singulares e de três lampiões, de base em coluna canelada e tocha barroca, com acabamento a prateado de alúmen, sendo encimados por globos circulares no caso dos singulares e em tocha, no caso dos de três lampiões;
– Bancos de duas frentes na alameda, com base em ferro forjado, em forma de ramos arbóreos, com tampos e costas de madeira acabada a tinta de óleo “vermelhão” ou “vermelho da China”, de topos arredondados;
– Lagos de betão, na cor natural, à semelhança das balaustradas.
– Soluções de ajardinamento em canteiros compostos, onde se conjugam três planos em altura: arbustos de plantas verdes e vivazes, que se recortam em formas variadas, roseiras armadas em estacas de média e baixa estacaria (esta é uma espécie que personalizou o jardim e o celebrizou) e canteiros de flores de baixa estatura de rotação bianual e que se compõem em matizes de cores variados, sempre na estética da simetria que o eixo central do jardim proporciona.
Os arbustos recortados com formas diversas (Topiaria) foram sempre uma das características deste conjunto, arte em que o Jardineiro José Francisco Simões Júnior (1910-1997), foi mestre. De notar o profissionalismo e dedicação deste jardineiro, que durante décadas realizou todas as tarefas de jardinagem deste espaço, não só conservando-lhe a traça original, como renovando continuamente as flores dos canteiros, cuja harmonia de cores e espécies, conjugava com mestria e sabedoria.
 O Jardim-Parque figueiroense, tendo sido o primeiro que foi construído na região Norte do Distrito de Leiria, transformou a vila de Figueiró dos Vinhos urbanisticamente, numa época em que as outras vilas vizinhas ainda apresentavam um aspecto marcadamente rural e arcaico.
Sendo um espaço circunvizinho à Igreja Matriz, classificada como Monumento Nacional e constituindo por excelência o espaço público do rossio da vila, deve ser alvo de especial preservação no seu conjunto, desenho e estrutura, o que não só inclui o mobiliário original, bem como as diferentes espécies botânicas, arbóreas, arbustivas e florais. O seu conjunto conferiu-lhe a qualidade de equipamento urbano de características únicas na região, embora singularmente localizado na ágora de uma vila de montanha do interior do país.
Bibliografia
– A Regeneração, N.º 143, Ano III, Figueiró dos Vinhos, 7 de Abril de 1928.
– PORTELA, Miguel e LUCAS, Margarida Herdade, A Quinta dos Paivas ou a Quinta do Ribeiro Travesso, Figueiró dos Vinhos, Figueirotipo, 2011.
– PORTELA, Miguel e LUCAS, Margarida Herdade, A Idade do Ouro da Imprensa do Norte do Distrito de Leiria, Figueirotipo, Câmara Municipal de Pedrógão Grande, 2011.
– PORTELA, Miguel, Ilustrar Figueiró, Figueirotipo, 2008.
– VIEIRA, Maria Elena Merege, O Jardim e a Paisagem, Espaço, Arte e Lugar, Annablume, São Paulo, 2007.

1) Inaugurado pela equipa da Selecção Nacional de Hóquei em patins, então também campeões do
mundo.
14 – Jardim Municipal de Figueiró dos Vinhos. Planta de pormenor. S/data; autor desconhecido
5 – A Regeneração, N.º 143, Ano III, Figueiró dos Vinhos, 7 de Abril de 1928

16 – Jardim Municipal de Figueiró dos Vinhos. Foto da
colecção da autora

domingo, 22 de maio de 2016

O jardim de Castanheira de Pera

Os jardins de Castanheira de Pera são uma preciosidade, reconhecida a nível nacional desde há muito.

De uma revista da ACP Automóvel Clube de Portugal sem data, mas que julgamos do final da década de 70 do século passado, extraímos um artigo de Vasco Callixto*,


* Vasco Callixto é um jornalista e escritor de turismo, tendo-se especializado também na investigação nas áreas do automobilismo, do desporto automóvel e da história da aviação em Portugal. Nasceu na Amadora em 12 de janeiro de 1925  Wikipédiahttps://pt.wikipedia.org/wiki/Vasco_Callixto